top of page

A Dislexia e o nosso dia-a-dia

Atualizado: 26 de ago. de 2020

Meu trabalho como professora particular começou quase que simultaneamente com a minha graduação em Fonoaudiologia. De lá para cá, anos de experiência misturando ensino e terapia.

Coincidências à parte, ultimamente - texto de 2016 - tenho dado aulas a 2 alunos que têm dislexia. Quando a mãe de um deles descobriu que, além de professora, graduei em fono, abriu um sorriso de orelha-à-orelha.

Ele tem "n" questões a serem trabalhadas com o monitoramento de um profissional: não respeita as pontuações durante a leitura; não corta os t's (nunca se sabe o que é um t ou um l); agudo? circunflexo? pingos nos i's? Para quê?


A delicadeza da questão é ter a sensibilidade de ponderar que a aula particular é uma nova atividade para ele, mas as dificuldades (e as queixas escolares referentes à elas) já vêm no seu pacote de vida, desde antes da alfabetização.

Então, como fazer para abordar um "problema" de vida toda, com todas as cobranças, desconfortos, vergonhas e frustrações que, certamente, esse aluno tem acumulado no seu histórico?

Eu, particularmente, só vejo uma maneira de abordar tantas questões de uma forma leve e que não reproduza e reafirme todo este desconforto:

Deixando de levar essas dificuldades tão à sério.

- Menino, lê este parágrafo para mim... ... ... ei, ei, ei... isso é narração de jogo de futebol, ou o quê? Espera, respira! Você sabe para que existe tanta pontuação diferente espalhada por aqui? Esqueça a teoria! A verdade é que isso tudo existe para você poder respirar! Verdade! Vou tentar ler tudo sem parar!

Olha como sai... ... ... Compare agora... ... ... (e ele achou divertido me ouvir narrando loucamente o parágrafo).

Assim, avançamos uma casa. - Ei, não esqueceu nada no meio do caminho não? E o traço dos t's? E o pingo dos i's? Você acha que isso tudo serve para quê? É igual a orégano, é? Que você pode ir salpicando onde/quando quiser? (risos).

Como é seu nome completo? Humm... tem um sobrenome com 2 t's! Olha só! Destes, você não esquece o traço, né? Por que será?


E de uma redação para outra, a quantidade de t's sem traço pulou, "milagrosamente" de 10, para 1. Avançamos mais uma casa.

Seguimos no diálogo:

- Está tudo melhorando, você está indo muito bem... Mas vamos dar um jeito nessa confusão que você faz entre "e" e "é"? Se tem o acento, o som é de /e/ mesmo, aberto, (éeeee); se não tem, o som é de /i/... Não vai.. Tento, repito... ele confunde tudo de novo..

- Quer saber de uma coisa? Vou fazer um desenho:



Na primeira linha, tem "João E Maria". Na segunda linha, tem "João É Maria". Viu aí como é importante saber a diferença? (gargalhadas).

Agora, faz assim: Quando tiver o traço no /e/, você lembra do traço do bigode em Maria, certo? (mais gargalhadas). Ele vai deixar de ter dislexia? Não! Dislexia não é como uma peça ajustável, uma doença medicável, muito menos uma condição lamentável. É uma dificuldade. Apenas uma dificuldade. E que irá acompanhá-lo a vida toda.


O que podemos fazer, é reduzir o grau dessa dificuldade, se possível, junto com todo o sofrimento relacionado a ela.

Claro que isso nem sempre funciona, nem com qualquer um. Funcionou com um dos meus alunos, com o outro, não houve sequer como tentar (ainda?). Pois, tão importante quanto respeitar as dificuldades, é respeitar também as particularidades, a individualidade.


É aí que tento separar minha antiga atuação terapêutica da minha atual atuação como "tutora". E, simplesmente, não dá!


Parando para refletir, tenho que dizer aos meus colegas que continuam atuando na área:

Agora eu sei, o olhar que aprendemos a ter sobre "o outro" acaba se impregnando na nossa personalidade, na forma de lidarmos com as pessoas.

Você pode até abandonar a Fonoaudiologia, mas, pelo visto, parece que a Fonoaudiologia nunca vai desistir de você.


[Mia]

 
 
 

Comentários


bottom of page